Cultura

Lageano se inspira na natureza para pintar passarelas do Rio Carahá

Uma técnica de arte em desenho existente há quase 50 anos, o grafite esbanja diversão, impressiona e “freia” a correria da vida urbana

Os desenhos parecem ganhar movimento e o colorido nas paredes fascina os olhos. A imaginação derruba barreiras e corre solta. Estes são os fenômenos emocionais causados pela arte do grafite (grafitismo), uma manifestação em espaços públicos vista ao ar livre, intimamente ligada a vários movimentos, em especial ao hip hop. Em Lages, as passarelas que dão acesso para os pedestres aos lados opostos da Avenida Belizário Ramos, sobre o rio que corta considerável parte do perímetro urbano do município, estão se transformando, de simples monumentos de mobilidade sérios e despercebidos, em criações divertidas e simpáticas tanto para os pedestres que utilizam este dispositivo, quanto para os motoristas da via.

Pelas mãos do grafiteiro lageano, Everton de Oliveira Figueiró, 36 anos, casado, sem filhos, as pontes para pedestres estão se tornando amplas murais de valorização dos elementos pertinentes à Serra Catarinense. Impossível passar pelo local e não dar aquela “espiadinha”. Ele aceitou o convite do vice-prefeito Juliano Polese para embelezar os 11 pontos de passarelas espalhadas pelos mais diversos pontos da avenida Carahá. “Vi uma grafitagem desta em uma das viagens que fiz e achei interessante. Alguns dias atrás, quando assumi a prefeitura, tentei colocar em prática. E visualizei o nome do Everton na Revista Serrana em uma matéria. E deu certo. Acertamos um valor que está sendo pago pela iniciativa privada, de algumas parcerias. Teremos um visual diferenciado e as passarelas serão deste modo recuperadas, dando uma alegria maior a nossa cidade e incentivando a arte ao proporcionar algo diferente que irá chamar a atenção”, salienta Polese. O artista Everton estima que em um mês todas as passagens elevadas estejam com suas grafitagens concluídas.

O desafio começou na passarela próximo ao Supermercado Martendal, sentido Triângulo – Centro. “Inclusive, ontem (quinta-feira), quando estava pintando ali o desenho de uma curicaca (curucaca), não é que tinha uma ali pertinho de mim, servindo de pura inspiração? Paisagem, animais, rio e pinheiro são reproduzidos na parte de fora. Na de dentro há peixes, como o cará, espécie típica”, descreve Everton.

Com estilo despojado, composto por camiseta e bermuda escuras, de boné e tênis, o cara com “pinta” de adolescente, confessa sua sensibilidade com os traços sutis em verdadeiras obras formadas pelo amanhecer e por do Sol, rios, lagos, montanhas de serra, pinheiros araucárias, gralhas azuis, curucacas. Não é à toa que sua percepção de mundo e de respeito às características geográficas, climáticas e de fauna e flora regionais prometem encantar os lageanos e visitantes. “Todas as técnicas são bem exploradas. Meu desejo é que o trabalho fique o mais bonito possível. O spray dá efeitos que o pincel não alcança e vice-versa. É gostoso de fazer e de admirar.”

Alma de jovem

Artista plástico há 20 anos, Everton, autodidata, tem como profissão o grafite, além de artes em geral, como a pintura, aerografia e decoração de ambientes, em uma carreira que dá para se dizer solitária, já que se concentra mentalmente e faz o que tem de fazer sozinho. Seus únicos companheiros nesta empreitada são os tubos de spray, tinta acrílica e esmalte, rolo, pincel, compressor, aerógrafo e pistola. Normalmente, não há um crew – conjunto de grafiteiros que se reúnem para pintar ao mesmo tempo. Um trabalho admirado pelo lageano é o de Daim, artista alemão de grafite, conhecido por suas obras de grafite de grande porte em estilo 3D. Carrega a reputação de ser um dos melhores grafiteiros do mundo por seu estilo tecnicamente sofisticado.

E assim como quase todo guri, ele arriscava seus primeiros rabiscos de forma modesta. “Eu comecei com 16 anos. Desenhava nos cadernos, em todo lugar. Gosto de representar paisagens, é como uma marca registrada do meu trabalho, sempre vai ter. Hoje consigo viver da arte”, explica o grafiteiro, que estudou Artes Visuais até a metade do curso de graduação na Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac), porém já fazia pintura anteriormente e a vontade de voltar a estudar e concluir é latente.

Everton não sabe explicar ao certo o porquê se tornou um grafiteiro, mas o amor ao desenho é evidente e cadencia o andar da carruagem no seu ofício, pois todo começo é tímido e tem relação com o que se faz atualmente. “Foi algo que aconteceu automaticamente, de repente me vi pintando na rua. Participei de alguns murais aqui em Lages há bastante tempo, como num evento em 2000, quando pintei a Biblioteca Pública Municipal. No ano anterior, em 1999, pintei o colégio onde estudei tempos atrás, o Lúcia Fernandes Lopes. Tenho uma bela caminhada”, celebra o artista.

Para visualizar mais do seu trabalho enquanto as passarelas não ficam todas protas, vários locais da cidade já têm seu grafite estampado, a exemplo de uma loja de skate nos fundos da loja Zago, além da Academia Magistral, Escola de Educação Básica (E.E.B.) Vidal Ramos e o Centro de Educação Profissional (Cedup) Renato Ramos da Silva.

Arte urbana de quase 50 anos

Em relação ao grafitismo em si, existem vestígios de sua existência desde o Império Romano. Na Idade Contemporânea, seu surgimento aconteceu na década de 1970, em Nova Iorque (Estados Unidos – EUA). No Brasil foi introduzido no final da década de 1970, em São Paulo. Com a incrementação de técnicas e a evolução na criatividade, o estilo do grafite brasileiro é reconhecido entre os melhores do mundo.

Alguns termos e gírias são grafiteiro/writter (o artista que pinta); bite (imitar o estilo de outro grafiteiro); crew (conjunto de grafiteiros que se reúne para pintar ao mesmo tempo); tag (assinatura de grafiteiro); toy (grafiteiro iniciante), e spot (lugar onde é praticada a arte do grafitismo).

Texto: Daniele Mendes de Melo

Fotos: Nilton Wolff / Divulgação

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